Entre os primeiros, os chamados cultores do pensamento “pragmático”, vitória por meio a zero é o mesmo que uma estrondosa goleada. O argumento destes é o de que tanto na vitória apertada quanto na goleada a equipe vencedora leva os três pontos na tabela de classificação e, dependendo dos tropeços dos adversários, fica com título do campeonato.
E continuando o argumento, dizem os “pragmáticos” que gol de canela (especialidade do artilheiro Dada Maravilha, nos idos anos de 1970), de bico (até o super craque Romário chegou a fazer um desses) ou de barriga (como aquele do Renato Gaúcho, contra o Flamengo, na decisão do campeonato carioca de 1995) vale tanto quanto um gol de bicicleta.
Já para os defensores de que o espetáculo está cima de tudo, o futebol não pode prescindir das jogadas de efeito, do drible desmoralizante, da falta cobrada inapelavelmente fora do alcance do goleiro adversário, do improviso que contraria toda a tática estabelecida pelo técnico no vestiário, da paradinha na hora do pênalti, do jogo de cintura e do passe de trivela.
Garrincha, Pelé, Maradona, Canhoteiro (Zeca Baleiro fez até uma canção em homenagem a esse veterano futebolista maranhense), Edu (ponteiro-esquerdo do Santos e da seleção brasileira nos anos de 1960 e 1970), Júlio César (aquele do Flamengo que foi campeão da América e do Mundo), todos esses fizeram a alegria dos adeptos da fantasia e do show.
Naturalmente, a história está aí para provar que não há uma fórmula que dê razão total a nenhum dos lados (o da pragmática ou o da fantasia). A história está cheia de exemplos de times que triunfaram ou naufragaram jogando só pelo resultado, assim como equipes de sonho que venceram ou que foram abatidas no meio do caminho. Vide a própria seleção brasileira.
Metendo, então, o meu bedelho na discussão, me parece que o ideal é a equipe que possa aliar a um só tempo a força e a fantasia (aquela seleção holandesa dos anos de 1970, que aplicou um chocolate no Brasil na Copa da Alemanha, talvez seja a síntese desse ideal). Força no sistema defensivo, leveza e graça no ataque, com a respectiva coordenação entre os setores.
Se isso é possível no futebol brasileiro do século XXI? Eu penso que sim. A atual equipe do Santos, formada na sua maioria por garotos oriundos das divisões de base, parece estar a alguns passos dessa síntese. O clássico contra o Corinthians no domingo passado foi a prova disso. Técnica e força nas exatas proporções. Tem dado gosto ver esse time jogar!




