Walter Félix de Souza
A educação física acreana, a Universidade Federal do Acre e o futebol regional devem muito a esse velho feiticeiro
(Publicada no Jornal da Ufac – Outubro de 2007)
Francisco Dandão
Aos 80 anos (completados em 18 de julho), o professor Walter Félix de Souza, popularmente conhecido como feiticeiro Té (pela capacidade de mudar o rumo das partidas enquanto técnico de futebol), leva uma vida de puro ócio, acompanhado da esposa Marlene Magalhães e de vinte passarinhos (paixão que ele exercita desde a adolescência) numa casa de classe média na Cohab do Bosque. Durante as noites, religiosamente, uma dezena de amigos reúne-se na área frontal para animadas partidas de dominó e conversar sobre todos os assuntos possíveis e imagináveis.
Walter Félix foi o segundo acreano a formar-se em Educação Física (pela Escola Nacional do Rio de Janeiro), em 1948, aos 21 anos. E já começou o exercício profissional que iria consagrá-lo na volta para casa durante os anos de estudo, quando trabalhava em dois lugares: na escolinha de natação do Botafogo e na Associação Cristã de Moços. “Para equilibrar o orçamento, complementado por uma bolsa de estudos concedida pelo Governo do Acre, o Silvestre Coelho”, diz. Além disso, ainda achava tempo para bater uma bolinha no meio-de-campo do time da faculdade.
Ao retornar ao Estado, até se aposentar, nos anos de 1980, Walter Félix exerceu diversos cargos de direção na vida pública: diretor do Colégio Acreano, diretor da Escola Normal Lourenço Filho, diretor do Colégio dos Padres (atual Meta), diretor do Ciclo de Estudos Básicos da Universidade Federal do Acre (Ufac), representante da Merenda Escolar e presidente da Fundação Cultural (Governo Romildo Magalhães). Ajudou, ainda, a fundar o Atlético Clube Juventus, fundou o Departamento de Educação Física da Ufac e participou do grupo que elaborou o projeto de criação do curso de Educação Física da mesma universidade.
A seguir, os principais trechos de um depoimento exclusivo do velho feiticeiro ao Jornal da Ufac , durante um par de horas regadas a várias xícaras de café, algumas gargalhadas e uma infinidade de boas lembranças.
Jornal da Ufac – Sobre o seu ingresso na Ufac... Como é que aconteceu?
Walter Félix – Eu entrei através de concurso. Foi aberto um concurso, eu consegui passar e, por uma dessas razões do destino, acabei sendo o primeiro professor de educação física da Instituição. Isso tudo no início dos anos de 1970. A universidade ainda funcionava ali na rua Benjamin Constant, onde hoje se localiza o prédio da Secretaria da Fazenda. Só muito tempo depois é que nós fomos para o campus universitário, passando ainda pelo prédio da Getúlio Vargas [avenida].
Jornal da Ufac – Quais eram as principais dificuldades nessa época para iniciar as atividades, levando em conta que o senhor foi o primeiro professor do Departamento de Educação Física?
Walter Félix – Primeiramente, é bom que se diga, eu contei com a ajuda de todos os reitores com quem eu trabalhei: o professor Áulio Gélio, o Moacir Fecury, o Sansão Ribeiro. Todos eles me ajudaram muito mesmo. Porque no início, apesar de já existir a lei determinando que houvesse educação física nas universidades, poucas instituições obedeciam. Introduzir alguma coisa assim, de primeira, exigiu um trabalho árduo. Mas o mais difícil foi mudar a mentalidade dos alunos, de que eles deviam praticar esporte, porque a maioria não demonstrava o menor interesse. Ao contrário, até resistia à idéia. Mas nós conseguimos e acabou saindo tudo bem.
Jornal da Ufac – Levando em conta essa mentalidade dos alunos, como é que se davam as aulas?
Walter Félix – Como determinava a lei, os alunos de curso superior deveriam praticar esportes, nada de ginástica. E as modalidades de desportos eram escolhidas pelos próprios alunos. Nós abríamos três categorias: natação, futebol de salão e voleibol. Dessas três, os alunos faziam a sua opção, nós organizávamos três turmas e dávamos para os alunos aquele esporte com o qual mais eles se identificavam.
Jornal da Ufac – Em que momento a Ufac entendeu que deveria criar o curso de Educação Física e como foi que isso aconteceu?
Walter Félix – A criação do curso de Educação Física na Ufac foi um sonho meu realizado. Quando eu terminei a minha graduação, no Rio de Janeiro, em 1948, eu e os outros três colegas que se formaram, de uma turma de 40, nós assumimos o compromisso de criar nos nossos estados um curso dessa natureza. Isso ficou na minha cabeça durante muito tempo. Até que surgiu na Ufac a oportunidade de realizar o meu sonho. Mas, devo dizer, nada seria possível sem a ajuda de alguns colegas, casos da pró-reitora Clara Bader, de um grande amigo meu de Manaus, o Fanalli, que já tinha criado cursos de Educação Física em Boa Vista , Porto Velho e Macapá, e mais os professores que compunham o Departamento de Educação Física na época, como Fernando Andrade, José Aníbal Tinoco, Ivone Carneiro e outros. Graças a Deus o meu sonho foi realizado.
Jornal da Ufac – E nesses anos todos, desde a criação até agora, no seu modo de ver, o curso de Educação Física da Ufac tem cumprido o papel que o senhor esperava dele?
Walter Félix – Eu acho que sim. Porque hoje são muitos os ex-alunos que já estão ministrando aulas nos colégios, tanto da capital quanto do interior. Eu acho que o curso tem cumprido a sua finalidade. E um bom indicador da qualidade do curso é a concorrência que tem no vestibular. Todos os anos é uma boa concorrência, ficando um número de pessoas de fora maior do que aqueles que conseguem entrar. Isso, me parece, é sinal, inclusive, de que existe um grande mercado para o profissional dessa área para ser ocupado.
Jornal da Ufac – E quanto à diferença, no que diz respeito à formação de atletas... Eu gostaria que o senhor estabelecesse uma diferença nesse sentido, levando em conta como esse processo acontecia antes e como é que acontece hoje.
Walter Félix – Eu penso que só é possível formar bons atletas se existirem bons profissionais de Educação Física. Mas também são necessárias boas instalações. Eu diria que aqui no Acre nós estamos deficientes de boas instalações, mas os professores, até certo ponto, têm superado essa deficiência. O Acre tem se apresentado bem em competições nacionais e regionais. Não chega a ser o primeiro, mas também não tem sido o último. Isso é fruto da boa orientação dos professores. Isso que eu estou dizendo, é a mesma coisa que acontece no futebol brasileiro. Veja o exemplo do São Paulo, que entra em todas as competições como favorito. Sabe por quê? Pela ótima estrutura que tem. O centro de treinamento do São Paulo é maravilhoso. Se a gente comparar com o de outros clubes, o São Paulo está muito distanciado deles. Hoje está comprovado que as instalações andam paralelas ao bom desempenho das equipes.
Jornal da Ufac – Quanto a sua carreira como técnico de futebol, eu gostaria que o senhor contasse como é que começou essa grande história.
Walter Félix – Primeiramente, eu devo dizer que jamais pensei em ser técnico de futebol. Tanto que eu só fui cursar uma cadeira na faculdade sobre o assunto no último período. E isso porque um colega, que era oriundo da Bahia, pediu para o nosso professor abordar o tema. Cursei a disciplina e vim embora para o Acre. Aí, num belo dia, a convite do doutor Marinho Monte, que era presidente do Independência, eu me vi como treinador do time, para um único jogo, que era justamente um amistoso contra uma seleção do departamento boliviano do Pando. Essa seleção boliviana ganhou de todo mundo de goleada. Menos do Independência, quando conseguimos empatar. Daí veio o convite para ficar treinando a equipe em caráter definitivo, mas eu respondi que não queria saber daquilo. Passado algum tempo, eu fui ao Estádio José de Melo assistir um jogo entre Rio Branco e América, oportunidade em que o Estrelão levou uma surra de 4 a 0. O técnico, que se chamava Rui Azevedo, pediu demissão na mesma hora. E foi então que eu, que devia um grande favor ao presidente do Rio Branco, um senhor chamado Major Izidoro, me ofereci para assumir o lugar do treinador. Isso em 1949. Fiquei três anos seguidos no Rio Branco e entendo que fui muito bem sucedido. Só larguei a carreira em 1988, no último campeonato do regime amador, quando eu fui campeão pelo mesmo Independência que proporcionou a minha primeira experiência à beira do gramado.
Jornal da Ufac – Que futebol era aquele que se praticava no Acre no tempo do amadorismo?
Walter Félix – Era o mais empírico possível. Na história do futebol, os primeiros sistemas adotavam uma linha com cinco atacantes. Ninguém marcava ninguém e todo mundo jogava à vontade. Quando eu cheguei aqui, entendi que não devia armar os meus times assim. Aí eu comecei a implantar, isso no Rio Branco, um sistema que era empregado por um treinador chamado Fleitas Solich, do Flamengo, com apenas três homens na frente. Por conta do sucesso do nosso sistema, eu acabei sendo convidado pelo doutor Ary Rodrigues, que era o presidente da federação na época [início da década de 1960] para treinar uma seleção local que deveria fazer uns amistosos em Manaus. Detonamos todo mundo em Manaus: Fast, América e Labor. Além disso, ainda falando do tempo do amadorismo, eu gostaria de registrar, com muito orgulho, que fui um dos fundadores do Atlético Clube Juventus. Eu, Toca, professora Dinah Gadelha, padre Mário e padre Antônio Anelli. O Elias Mansour entrou como convidado, no momento seguinte. Então, resumindo, a respeito do que você perguntou, o futebol nos tempos mais antigos do Acre era pior do que o praticado uns anos depois, uma vez que nem esquema tinha. Claro que agora está muito ruim. Mas, entre os primeiros anos e agora, nós tivemos jogadores de ótimo nível técnico.
Jornal da Ufac – A que o senhor atribui a baixa qualidade técnica do futebol acreano nos dias de hoje?
Walter Félix – Veja bem, o profissionalismo é uma faca de dois gumes. Se for bem administrado, tudo certo, mas se não for, dá no que dá. Aqui no Acre, o futebol caiu, renda caiu, tudo em decorrência ao espetáculo que ficou mais feio. Praticamente não tem mais espetáculo. Só tem correria desordenada. Nos anos de 1970, a gente fazia os jogadores. Eles saíam do juvenil, subiam para o time titular e davam conta do recado. Não havia esse mercado que existe hoje. O acreano tem uma qualidade nata muito boa para jogador de futebol. Mas falta orientação e, como eu falei antes, boa administração dos dirigentes.
Jornal da Ufac – Eu gostaria que o senhor me falasse agora dos maiores jogadores acreanos que o senhor viu em ação. O senhor conseguiria escalar onze, para compor uma fictícia seleção acreana de todos os tempos?
Walter Félix – Foram muitos os bons jogadores que passaram pelas minhas mãos, porque eu sempre gostei de trabalhar com os melhores. Isso de trabalhar com os melhores foi uma orientação que eu tive de um velho mestre. Goleiros, por exemplo, eu vi Tinoco, Zé Augusto, Ilzomar, Guedes (um boliviano que veio jogar no Rio Branco), Guimarães, esses eram ótimos debaixo das traves. Zagueiros, teve o Deca, o irmão dele, que se chamava Mozarino... Meio de campo, para mim o melhor de todos foi o Dadão... E teve também Mariceudo, Emilson, Tadeu e Merica, muitos bons... Como atacantes, eu destaco Toca, Fued, Guedes e Hugo Sena Pinto... Nas laterais teve o Mauro, o Antônio Maria e o Chico Alab... Ponteiros: Bico-Bico, o rei dentre todos. Mas, tinha também o Paulinho, que era um jogador excepcional!
Jornal da Ufac – Qual o time que lhe deu mais prazer dirigir?
Walter Félix – Olha, eu tenho uma coisa comigo: se você perguntar hoje qual é o time da minha preferência, eu não saberia te dizer. Isso porque eu aprendi que o time do coração é aquele no qual você está trabalhando. Eu não posso falar mal do Rio Branco, porque sempre fui muito bem tratado no tempo em que estive lá. Eu não posso falar mal do Juventus, clube que eu fui fundador e de onde eu só saí quando eu quis sair. Do Independência, igualmente, eu só tenho boas lembranças, tanto da torcida quanto dos dirigentes. Uma certa mágoa eu só tenho do Atlético Acreano. Foi o único time que eu treinei e no qual não consegui ser campeão, mas por culpa de alguns dirigentes. Eu fui convidado para trabalhar no Galo pelo doutor Adauto Frota, pegando o time sem ninguém. Aí eu fui ao Rio de Janeiro e trouxe vários jogadores, casos do Paulão, do Guedes e do Pitico, além de regularizar a situação do Zé Augusto. Mas aí, eu comecei a ter problemas com a diretoria quando barrei um dos ídolos do time, o Euzébio, que não gostava de treinar. Para mim, não tinha lógica escalar um jogador que não treinava, por melhor que ele pudesse ser, em detrimento dos que trabalhavam todos os dias. Aí a guerra foi declarada. A primeira competição com o Atlético, que foi o Torneio do Povo, eu já ganhei logo de cara. Mas então, já com a indisposição pela barração do jogador citado, quando chegou o campeonato, na véspera de um jogo contra o Juventus, a diretoria se reuniu e resolveu me tirar, sob a alegação de que eu era juventino. Só teve um diretor a meu favor, que foi o Rivaldo Patriota. Com as ponderações do Rivaldo, a diretoria resolveu deixar-me no cargo, mas com a condição de que eu seria demitido caso perdesse o jogo. Isso acertado lá entre eles, que eu não podia saber. Acabei sabendo pelo próprio Rivaldo. Ganhamos o jogo por três a zero e, no fim das contas, quando o diretor Ilson Ribeiro, um dos líderes no movimento para a minha demissão, veio me cumprimentar, eu peguei as carteiras dos jogadores, enfiei no bolso dele, disse um palavrão e fui embora para nunca mais voltar. A dúvida deles com relação ao meu caráter me magoou profundamente. Resultado: o Juventus foi campeão da cidade e eles ficaram com o rabo entre as pernas.
Jornal da Ufac – Por último, professor Té, eu gostaria que o senhor fizesse um rápido balanço sobre a sua vida. Uma espécie de olhar para trás, aos 80 anos, e dissesse o que o senhor fez que não faria mais, bem como o que faltou fazer.
Walter Félix – O que eu fiz e não gostaria de ter feito, eu faria de novo. Tudo o que eu fiz ao longo da minha existência foi consciente, fiz pela minha própria vontade, nunca fui sugestionado por ninguém. Eu nunca, por exemplo, botei um cigarro ou uma gota de álcool na boca. Os meus amigos saíam, farreavam, bebiam, me chamavam, mas eu nunca fui pela cabeça de ninguém. Até andava junto com eles, mas sempre dentro do meu próprio código de conduta. Então, o que eu fiz, os erros que eu cometi, e certamente cometi muitos, porque ninguém é perfeito, os cometeria de novo. Eu posso dizer que todos os meus erros foram cometidos de forma consciente. Às vezes, a favor de algum amigo, mas sempre defendendo a minha consciência. Deus foi tão misericordioso comigo que me deu 80 anos de vida. O que eu poderia dizer que me faltou a fazer? Eu não tenho mais nada a fazer. É aguardar meus dias e agradecer a Deus tudo isso que Ele me deu e que continua me dando.
(Entrevista gentilmente cedida por Francisco Dandão)
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